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A arte visual e os movimentos nacionais


Plano de Aula do Filme Por Longos Dias | Documentário | De Mauro Giuntini | 1998 | 13 min | DF


Justiça nós a temos, e não nos atende.
"Direito já nós o temos, e não nos conhece".
"Não necessitamos Caridade".
O que queremos é uma Justiça que se cumpra e
um Direito que nos respeite."
José Saramago - roteiro
O curta trazendo "uma visão poética do Movimento dos Sem Terra e da Marcha Nacional pela Reforma Agrária",
nos faz refletir sobre assuntos tais como: Justiça, Direito e Caridade. Justiça derivada do binômio "crime e castigo" - ainda que o castigo venha por conta de "crimes" de outros direitos e deveres - ainda que alguns vivam suas vidas perseguindo os primeiros e cumprindo os segundos, como se fossem passíveis e tão somente "carentes" de Caridade.




Objetivos
 Conhecer a história e a geografia dos diferentes grupos de Movimentos Sem Terra
 Despertar sentimentos de empatia e solidariedade aos grupos realmente interessados em terra para trabalhar e arar
 Diferenciar MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - de 1970) do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto - de 1997)
 Oferecer às crianças e jovens oportunidades de "capturar", por meio do desenho ou da fotografia momentos capitais de sua própria realidade
 Refletir sobre a importância da arte visual como recurso e meio para a tomada de consciência e conhecimento da realidade.

Situação Didática
Fases do Trabalho:

1. Apresentação do curta "Por longos dias"
2. Criação de um painel coletivo sobre o entendimento que tiveram acerca do Movimento dos Sem Terra - MST enquanto forma de representação social e superação do status quo à que se erige a realidade brasileira de milhares de trabalhadores sem terra
3. Momento de Fruição e direção do olhar através dos livros de fotografia de Sebastião Salgado, preferencialmente o livro "Terra" (do qual faz parte o texto de José Saramago - prefácio do livro e roteiro do curta)
4. Momento de reflexão: intertextualizar o texto de Saramago ao texto de Vinícius de Moraes "Operário em Construção" (ver anexo 2)
5. Momento de Criação: construção de portfólios fotográficos (ou de desenhos) que sejam a base para a construção coletiva de um blog temático sobre a situação das pessoas sem terra ou sem teto de sua comunidade ou de comunidade próxima à sua
6. Situação Comunicativa: socialização de sua produção e preparação de um Jornal Mural a ser compartilhado com a comunidade através dos murais da escola.


Orientações Didáticas:

Levar os alunos a perceberem a fotografia como o registro de um povo, de uma cultura, de uma época trabalhar em um suporte amplo como o Jornal Mural estudar composição, ocupação do espaço, cores etc. Para trabalhar com a imagem iconográfica deve-se:
1. construir um eixo temporal a partir da seqüência cronológica ou cultural de determinado ser social, grupo social ou região
2. estipular um roteiro de observação para subsidiar o "espectador" em sua tarefa de abstrair ou transmitir informações de/com determinada imagem
3. procurar perceber os "silêncios" nos discursos imagéticos: tais e quais fatos, situações e pessoas são passíveis de registro, quais não são
4. perceber a "lógica pela qual os símbolos se ligam" entendendo a conotação "psicológica" encontrada nas frestas e silêncios
5. tentar estabelecer um novo "sentido" e uma nova "mensagem" através daqueles(as) expressos(as) pelas imagens, buscando fazer uma re-leitura da "leitura" sugerida e compreender a conotação subjetiva da Arte, posto que ao carregar muito do sujeito que a interpreta e analisa, será sempre subjetiva em cada momento histórico/pessoal.


Roteiro: Observando paisagens e moradias de sua localidade
 Há vegetação na paisagem? Quais tipos de vegetação?
 A vegetação é natural ou foi plantada pelo homem?
 Como é o relevo da paisagem?
 Quais acidentes geográficos existem na paisagem?
 Existem mudanças na paisagem provocadas pelo homem?
 Existem terras/casas abandonadas/ desocupadas há muito tempo?
 Como são as moradias?
 Que material é utilizado na construção das casas?
 Como se dá a divisão dos espaços nas moradias?
 Quais utensílios estão presentes na moradia? Qual seu aspecto?

Comentários



Anexo 1: Fotografia e Discurso Visual (fragmentos)

A fotografia, tal qual a conhecemos hoje, é uma continuidade da Ideologia Renascentista, agora reciclada, adaptada e incorporada à nova Ordem da Sociedade Industrial. Ela nada mais é do que a visualização desse novo discurso: racional, claro, tecnicamente perfeito e instantâneo. Ao invés de ser um "retorno renascentista", a fotografia é, em síntese, a retomada à nova racionalidade da emergente burguesia industrial, a partir de meados do século XIX.

Portanto, os discursos ou sistemas simbólicos elaborados pelos homens para representar o mundo, são sempre ideológicos, pois, longe de constituírem entidades autônomas transparentes, são, em última instância, determinados pelas próprias contradições inerentes à vida social.

O significado do discurso fotográfico é definido por um conjunto de noções oriundas de cada segmento social e as associações dessas imagens estarão diferenciadas em função da maneira que cada grupo a emprega ou atribui o seu valor.

A evolução da linguagem fotográfica está, na realidade, em estreita dependência do seu contexto histórico. Temos, assim, uma relação evidente entre a evolução da linguagem e as condições sociais em que a fotografia, enquanto meio de expressão evolui. O próprio desenvolvimento da sociedade conduz a linguagem por um caminho determinado. Portanto, a história das imagens é reflexo direto da história das civilizações.

A fotografia, antes de mais nada é um documento. Sua linguagem se resume no discurso, na narrativa visual. Seu único propósito é a mensagem, contida na própria imagem ou no simples recado que o fotógrafo quis transmitir. A fotografia fala por si mesma...

E que para tudo isso possa acontecer vamos depender da sensibilidade do seu autor, da sua persistência, do seu olhar, conhecimento técnico, padrão cultural e principalmente do seu trabalho criativo e intelectual.


Fonte:
http://www.virtualphoto.net/artigos/enio06.php

Bibliografia consultada e sugerida:

ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual. São Paulo: Pioneira/USP, 1980.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais - Arte.
Brasília: MEC, 1996.

GUERRA, Maria Terezinha T. Artes da Luz. In: A ARTE É DE TODOS. São Paulo: CENPEC - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, s/d.

GUERRA, M. Terezinha Telles, MARTINS, Mirian Celeste, PICOSQUE, Gisa. Didática do ensino de Arte: a língua do mundo - poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998.

SANTOS, Marilene Lima. O trabalho com História e Geografia: Metodologia e Prática de Ensino. São Paulo: Edukaleidos, 2003, mimeo.

O Movimento Sem Terra - MST: http://www.brasilescola.com/sociologia/mst.htm

MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto): http://www.mtst.info/


Anexo 2 - Operário em Construção

Vinícius de Moraes

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo,
Que a casa de um homem
é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa quer ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Alem uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
à mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão nas queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.
Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porem, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrario
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio se fez
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porem que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Fonte: MACHADO, Ana Maria. O tesouro das Virtudes para as crianças. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, pp. 63-68.


Pedagogo Autor do Plano de Aula
Marilene Lima


Formação: Mestre em Educação: História, Política, Sociedade, pela PUC/SP (1999-2001) tendo desenvolvido pesquisa sobre a História dos Métodos de Alfabetização em São Paulo.Psicóloga, formada pela UMESP (1991-1997).
Atividades Profissionais: Coordenadora do Programa Edukaleidos: Educação para o bem-estar [http://www.edukaleidos.pro.br]. Docente na Pós-Graduação da UNISA nos cursos de Psicopedagogia Clínica e Institucional (Lato Sensu)e MBA Executivo em Gestão de Pessoas (Unisa Business School).
Publicações: Últimas publicações: Entrevista concedida à jornalista Thais Gurgel, do Caderno Especial: Educação Infantil, da Revista Nova Escola, "Conhecimento de Mundo na Educação Infantil", publicação prevista para março/2007; Artigo no site Pró-Fala (http://www.profala.com/artpsico41.htm - Portugal) Educação, Psicanálise e Cultura
Nível: Ensino Superior
Instituição: UNISA | São Paulo | SP